quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Névoa

Deus, meu Deus. Ó, Deus, ó céus, ó vida. Aqui eu cheguei e daqui parece não ter aonde ir mais. Quantos erros, quanto tempo desgastado inutilmente sob influência não genuinamente própria. Me apropriei de novas dúvidas, de medos e frustrações, me vi jogado numa rodovia com muitos e muitos veículos passando sobre mim e nenhum me atingindo. Estou querendo morrer, mas tendo o medo de partir. Não consigo iniciar nada, nem mesmo terminar e isso é como estar acorrentado, dentro de algum lugar da minha mente que eu mesmo não tenho noção. 
Tudo que era, se foi e tudo que poderia ter sido, não foi. A angústia me consome diariamente e eu já não consigo mais lidar com nada - absolutamente nada - disso tudo. Como pode o mundo ser tão injusto e cruel, e frio e também sujo, imundo e detestável. Aos 28 anos tudo parece ter sido tão brevemente passageiro, tão vago e irracional que eu mesmo não estou conseguindo mais nem mesmo colocar sobre palavras ... Meu raciocínio e meu desejo, ambos extremamente confusos, e essa insegurança que transborda lágrimas de desespero e infelicidade.
Simplesmente não coube uma inteligência racional dentro de mim, nasci e não vivo, sobrevivo e no final do dia morro para então no dia seguinte poder repetir toda essa desordem cosmológica. Esse meu jeito de ser é tão errado, tão contra a própria existência que nem mesmo eu consigo lidar com o que penso e faço. Aos 27, um número que sempre me marcou e sempre me seduziu com base em falsas e ilusórias realizações naturalmente me petrificou quando chegou na idade em questão ... Nada pôde ser corrigido, feito e nem sequer realizado por completo. O acidente, a falta de estudos e perspectiva, o afastamento do trabalho, a perda do meu corpo como imagem e influência, o dinheiro ganho e gasto e as pessoas, novas pessoas, introduzidas e conscientemente machucadas ... A incapacidade de vislumbrar o arco íris ... Eu simplesmente errei e me condenei.
Hoje já não sei mais, por definitivo, quem sou é essa ausência de visualização interna me consome como as chamas que deveria o inferno - sim, o próprio inferno - serem feitas ... Eu queria ser rico, não para ostentar, mostrar, atiçar o desejo alheio, mas, para que eu verdadeiramente como um ser deve saber ter sua identidade, só ter. Talvez seja uma maldição congênita, transposta pelas ações e correntes que ao longo do tempo foram sendo fortificadas e, mais do que isso, forjadas para além da agonia e miséria.
Honestamente aqui escrevo e não guardo nada do que é digitalizado, trata-se apenas de palavras não ao vento, mas ao lamento temporário. Por que, Deus, disso tudo ? Seria um teste de fé por eu ao mesmo tempo que já, ainda, quando criança, ter me auto-responsabilizado por malignas ações que foram certamente os pilares para a condenação de toda uma vida. É esse o teste de fé ? Como que me livro desse demônio interno que vive dentro de mim ? Como que posso conduzir toda essa agonia sem fim apenas me baseado na esperança - na falsa esperança - de que amanhã será melhor do que hoje ? 
Esporadicamente, tudo parece entrar nos trilhos, mas, subitamente, algo acontece, como se fosse uma lei universal regida unicamente para mim mesmo e ainda assim permanecer em pé ? 
Ah, Deus ... Ó meu Deus, aja no milagre divino, trace uma nova jornada em que eu aconteça, em que eu mereça a conclusão final da minha existência ou caso contrário, eu suplico, meu Deus, ó Deus em sua infinita misericórdia e amor, conclua-me sob a morte e me enterre, me faça ser ao menos útil para os vermes que poderão se alimentar e procriar, através da minha carne já incolor. Uns dizem para ter fé e outros para acreditar em si próprio, mas não há como saber da capacidade do Divino se nem mesmo ele parece se importar com meus passos. 
Como que eu erguerei a taça da vitória se em toda essa minha vida simplesmente não há glórias ? Decisões e mais decisões, todas elas erradas, largadas e inundadas por minhas lamentações e lágrimas ... O ser humano é simplesmente horrível, e Deus sabe muito bem disso ... O que há lá fora, questiono eu mesmo, e também o que há aqui dentro de mim, também me questiono. Traria eu a morte próxima a mim ou a vida ainda poderia espanta-la pra longe e dessa forma com sua luz sagrada iluminar o meu cérebro e coração ? Pedi ajuda, tantas e tantas vezes que eu pedi ajuda e fui ignorado, por pessoas simples e também pessoas que detém o poder do capitalismo em suas mãos, todos se cegaram quando me aproximei, todos me largaram. Amizades medíocres, pessoas falsas e tenebrosas, seres humanos que não deveriam existir e simplesmente vivem como se Deus os abençoassem firmemente. Que estímulo há de ser vivido em uma cela dessas, um psicológico totalmente arrasado e atrasado. 
Logo é os 30 e tão breve os 40 e de nada houve a partir da minha existência. A dúvida me devora, me devora saboreando as minhas fontes de dores e sofrimento. Me ajoelho diante o céu mas o silêncio me faz levantar de cabeça baixa e resistir a um sinal de fé. 
Até mesmo um padre me ignorou solenemente, até mesmo amigos, nunca se importaram e até mesmo a mim mesmo, assisti definhando ... Pra onde eu deveria ir ? Hoje, chorei, ontem tive vontade e antes de ontem também houve a queda de uma lágrima. Mas isso não é pra ser natural, tampouco digno de relação de superação. 
O instinto da vida é forte, assim como o medo de morrer que freia a colisão, que arrebenta a corda e que cura a overdose. Queria ter coragem, muita coragem, pra poder me restaurar aos padrões de fábrica e nada mais ... Ou simplesmente, morrer. 
Descansar, apagar, desligar e não sentir nada do que se passa aqui nesse plano horrendo. Falando em horrendo, estou morrendo aos poucos, tudo está deixando de existir, aos poucos e eu sei muito bem aonde que o fim disso tudo se dará, mas ainda assim, sigo tendo fé. Porque é o que há, e se eu por estímulo externo perder essa fé, estarei por toda eternidade condenado ao sofrimento eterno. Mas é aqui sobre essa superfície que toda a história foi contada e eu não posso me comparar com fulano ou ciclano, que um perdeu algum membro de seu corpo e o outro adoeceu até que no último dia de vida viu a paz ou um novo outro que surgiu em mente, esfomeado, desnutrido e miserável que está até hoje sofrendo exponencialmente mais do que a mim, mas há também todos aqueles que vivem suas vidas sob fortunas e família e estabilidade como um todo. Não, não posso me comparar a eles, até porque somos seres humanos e individuais e sempre estamos procurando sentido em tudo e é assim que deve ser até no último suspiro. Retalhação divina, talvez seja essa a questão ... Seriam deuses, seres vingativos e cruéis ou seriam nós, humanos, seres egoístas e odiosos ? 
Não sei ... O que sei é esse ínfimo ato de fé que acredito, fielmente, ser o suficiente para poder me alavancar pra cima e ter nos meus últimos anos de prosperidade, uma vida assim, próspera. 
Mas, infelizmente eu acho que não. A fé transcende a razão, mas ainda assim, a razão não deixa de ser apenas razão, ela dita realidades, ela constrói e ergue impérios dificílimos de serem derrubados. 
Ó Deus, estenda sua mão pra mim, olhe para mim, ajude-me a ser o que fui destinado a ser e não, nunca me abandone assim. Não sou um judas, mas sou doente por causa de mim mesmo e todas aquelas atitudes irracionais e burras e dolorosas consequências após terem sido concluídas com êxito. Ah, essa vontade de acabar com tudo ... Eu acredito que em algum momento isso vai acontecer, ó Deus, faça que não.
Essa vidinha minha é mascarada pelas drogas, pelo temor em estar sóbrio e encarar toda essa frustração acumulada ao longo dos tempos...
Eu tenho o dom de me colocar num buraco sem fim, com chamas ardentes e ventos congelantes. Ah, meu Deus ... Por que disso tudo e não simplesmente o milagre ? Milagre, eu tenho que acreditar que haverá milagre ou então será esse barco de ilusões vividas de tempo em tempo em tempo de desgosto e infelicidade e dores e muitas dores que atingem o meu peito e se transferem pela minha alma. 
Ó Deus, eu sei que o senhor está lendo isso tudo através dos meus olhos, que o senhor está sentindo o que sinto e vejo também.
Mas que isso tudo tenha um fim, porque eu não sou um homem do mal, a minha vitalidade requer bondade para permanecer em pé, virtude é o que talvez deve me faltar, mas, de tudo que há e haverá, que haja riqueza e paz. Ou simplesmente paz e esperança. O mundo é desgostoso, pra todos aqueles que sentem o frio da vida e o calor da morte, mas está agasalhado de modo ilusório confortável e também teme às chamas. 
Me refiz, me traduzi em um idioma que talvez eu tenha me enganado em ser fluente e após tudo isso, após isso tudo, ainda me descaracterizo como um Ser. 
Ó pai do céu, seja Jesus ou algum outro nome que represente messias, mas que venha a me colocar no caminho do que foi a mim pré destinado. 
Me sinto só, sinto que em lugar algum há espaço para minha presença desde que eu tenha paz comigo mesmo ... O haverá de ser se eu por mim mesmo me der por vencido, vencido, derrotado pelas condições não explicitamente da vida, mas psicológicas, porque eu sei que sou um pouco de nada é muito do pouco. Que Deus me proteja, me guie e conduza para o caminho da luz, da esperança concretizada e, acima de tudo, da paz comigo mesmo. 

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